Wednesday, March 08, 2006

Meia Noite


Autor: © Alexandre Heredia

Encosto o cano do rifle no canto da janela, de modo a ter maior precisão. Focalizo a mira telescópica mas em seguida abro os dois olhos. Ainda não. Ainda não é sua hora. Meia noite. Meia noite ela aparece. E desta vez eu a pego de jeito. Ah, se pego.

Um polegar suado destrava a arma. Agora não tem volta. É puxar o gatilho e bum!, ela já era. Chega de me assombrar. Chega de noites insones, vendo aquela cara branca dela, aquele vestido maltrapilho esvoaçante, aqueles olhos. Sempre curtiu um teatro, não ia ser diferente depois de morta. Depois que a matei, a vaca, a puta, a escrota.

O maluco que me vendeu o rifle me disse que ele matava até alma penada. Tenho certeza que era algum eufemismo idiota, mas prefiro acreditar que não. Nove milímetros de precisão absoluta. Não interessa onde vai atingir, o estrago é sempre fatal. E ela morre de novo. De vez.

A luz da cidade lentamente é embaçada por uma fina névoa, o sereno confuso de toda metrópole. É quase hora. Olho mais uma vez na mira telescópica em direção à rua. Pouca gente, a maioria putas e travecos fulambentos abordando carros cheios de pervertidos. Povo escroto e disseminador de doenças venéreas. São o cancro duro da sociedade, o retrovírus da humanidade.

Pisco os olhos quando o suor escorre para dentro deles, ardendo. Curto a dor por um instante. Lambo meus lábios secos. O carrilhão da matriz anuncia que é chegada a hora. Meia noite. É agora. Vem, piranha, desta vez você vai ver do que sou capaz.

Seu rosto surge na noite, como se a neblina de repente se condensasse em uma face vagamente humana. Ainda não. Não caio nessa, sua puta. Vem, eu sei que você está me vendo. Ela desce até a rua, e a acompanho pela mira. De repente uma puta olha para cima, e são seus olhos nos dela. Aqueles olhos cheios de raiva e escárnio. Foi por isso que te matei, sua vagabunda, por causa deste olhar de zombaria, que me julgava toda vez que o cruzava, um olhar humilhante. Morra de novo!

O tranco do rifle machuca meu ombro, mas não tiro os olhos da mira. Lá embaixo um pandemônio se inicia. A puta se estrebuchava no asfalto, mas seu rosto já não é mais o dela. Ela é agora um travesti escondido embaixo de um toldo de uma loja. Continuava me olhando, me julgando, sorrindo de meu erro. Ria disso, sua escrota!

O travesti cai de joelhos quando sua cabeça explode. Do seu lado uma menina que não deve ter mais do que doze anos se banha com o sangue e miolos espirrados. E olha para cima, uma face de escárnio escarlate. Ela quase voa com o impacto da bala em seu peito juvenil, mas tomba como as outras.

Doze putas depois as balas terminam. Largo o rifle fumegante e caio de joelhos no chão. Ela sumiu, sumiu, finalmente. Depois de quase uma hora ouço sirenes se aproximando. Não me mexo, e após uma breve espera eles batem com violência em minha porta. A paciência é mínima, e em seguida eles a arrombam. Não luto contra as algemas nem os sopapos, pois por mais que eles me trancafiem em um buraco imundo e superlotado, finalmente estou livre. Livre de você, sua puta, sua vaca. Prendam-me, pois já me libertei.

Quando me empurram para o camburão vejo o rosto de uma puta no meio da multidão de curiosos. É um rosto assustado e horrorizado. Quase peço desculpas, pois elas realmente não tinham nada a ver com tudo aquilo, mas antes da porta fechar ela me olha com aqueles olhos malditos. E com eles zomba de mim, e de minha situação atual, pois sabia que agora eu já não tinha para onde fugir, e nem como me defender.

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A Lua dos Malandros

Autor: © Alexandre Heredia

Lua Nova. Nova noite. De oportunidades irrecusáveis, irrefreáveis, incontroláveis.

A lua sombria no céu era algo que Raul apreciava. As sombras ficavam mais escuras e os esconderijos mais confiáveis. Transeuntes alheios às marés se tornavam presas fáceis. E os ganhos minguados eram suficientes para pagar sua subsistência até o retorno da sombra planetária no satélite indiferente. E ele vivia assim, tranqüilo entre eclipses, até a chegada de Ana à puberdade.

Cabelos negros encaracolados serpentando por ombros nus. O decote generoso denotando a curva ainda suave dos seios recém surgidos. A barra do vestido no meio das coxas ainda magras, mas com grande potencial. Raul só tinha olhos para ela, para seu nariz arrebitado e permeado de sardas, seus olhos negros espertos e seu pescoço de cisne. Nas noites de lua, quando tirava folga dos furtos, Raul sempre arrumava uma desculpa para se aproximar dela, seja na praça do coreto, seja na quermesse da igreja.

Sabia que não teria coragem de conversar, pois ele era um reles menino de rua, e ela a filha do prefeito. Estivera na capital, estudando (num internato, diziam), e só retornava durante as férias. Boa moça, caseira e prendada, diziam os respeitáveis senhores durante os jogos de gamão. Arrumaria logo um excelente marido, fofocavam as carolas após a cerimônia de domingo.

Raul se enfezava quando ouvia o povo falar dela. Para ele Ana era uma deusa inatingível em sua magnitude. Uma virgem imaculada. Tão imaculada que sentia sua pureza feri-lo como fogo. Suas entranhas remoíam ao vê-la, inicialmente pela paixão que aquela visão magnífica causava em seus hormônios efervescentes. Depois, por ódio, pois sabia que aquele desejo nunca seria satisfeito, mesmo que ele roubasse a cidade inteira até ficar rico. Em que prato um pêssego fresco como ela se misturaria a uma capa de gordura de toucinho como ele?

Naquela noite Raul olhou para o grande espaço negro no céu estrelado enquanto aguardava por sua presa da noite deitado no gramado da praça da matriz. Pensou em Ana, em suas sardas, em seus peitos pequenos, mas que sempre inspiravam suas poluções noturnas, em suas coxas magras e em seus olhos negros como o céu à meia noite. Distraiu-se por um instante apenas, pois as fantasias de vez em quando transbordam para a realidade. Ou a invadem, como aconteceu quando ele abriu os olhos e vislumbrou, no espaço onde antes se encontrava a sombra da lua escondida, o rosto de sua amada, cujos olhos o fitavam com o brilho de pequenas estrelas.

De um salto, Raul se ergueu. Os pêlos de sua nuca eriçaram, na expectativa de alguma emboscada. Olhou para os lados, mas estavam sozinhos. Sacou o pequeno estilete instintivamente. Raramente o usou contra pessoas. Seus golpes eram furtivos e discretos. Mas sentiu uma urgência em se armar com o que fosse.

- Acalme-se - disse ela com sua voz melodiosa. - Não vou te fazer mal.

Ainda desconfiado, Raul retesou o braço. Com os olhos procurou um esconderijo, mas sabia que ela o havia pegado de jeito. Estava indefeso.

- Senta do meu lado? - continuou ela, enquanto sentava na relva, ajeitando delicadamente o vestido sobre os joelhos. - Quero conversar.

Raul recolheu envergonhado o estilete. Foram aqueles olhos negros, ele sabia, que o olhavam cheios de bondade. O que ela queria? Estava ela brincando com seus sentimentos? Teria ele transparecido alguma coisa? Sentou-se, não ao seu lado, mas à sua frente. A um braço esticado de distância.

- Não tenha medo. Estava me sentindo solitária, e decidi sair para um passeio. Me disseram que haviam fantasmas ou sacis na praça, que costumavam roubar as pessoas nas noites sem lua. Dinheiro, relógios, pulseiras. Rápidos demais para serem notados. Espertos demais para serem pegos. Precisava ver para crer. Mas você não parece um saci.

Raul riu, encabulado. Esticou as duas pernas para o lado para provar que pelo menos um saci ele não era.

- Um fantasma então? Um espírito brincalhão? É isso que você é?

Raul sacudiu a cabeça, mas sua negativa aparentemente não foi convincente. Curvando o corpo para frente, Ana esticou o braço para tocar em sua face. O decote desceu alguns centímetros, o suficiente para que ele vislumbrasse a curva anterior dos seios jovens dela. Só a curva, pois os mamilos rosados permaneciam escondidos nas dobras do tecido. Sentiu o calor dos dedos de Ana próximos à sua face como um choque elétrico, e afastou-se um pouco, assustado. Ela não o acompanhou.

- Não se assuste! - disse ela. - Não quero machucá-lo.

Ele se deixou tocar. Os dedos macios percorreram sua face com delicadeza, e ele fechou os olhos, aproveitando o gesto ao máximo. Um calor percorreu sua virilha, e subiu como um arrepio por sua espinha até, ironicamente, congelar seu estômago. O estilete foi esquecido na grama, junto com os medos ou ressalvas. Ele estendeu a mão trêmula quando ela baixou o vestido, revelando os pequenos seios ainda não totalmente maduros. Tocou os mamilos de leve, e sentiu-os endurecerem em seus dedos.

- Venha. Tem algo que preciso lhe ensinar.

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E ela ensinou.

Raul sentiu um caroço dançar em sua garganta enquanto recordava aquela noite, há tanto tempo atrás. Do telhado do edifício via os últimos raios se esconderem por entre a paisagem metropolitana, refletindo em vidros espelhados como num esforço desesperado para permanecerem na cidade após o astro desaparecer no horizonte.

Desaparecer como sua Ana. Por onde ela andaria? Automaticamente tocou o pingente em seu pescoço. Um pequeno sol dourado, cujo centro móvel girava para revelar uma face esculpida em ônix. Um sol negro. Uma lua negra. O último presente de Ana.

O sol finalmente se pôs, e o disco brilhante da lua surgiu sorrateira por entre as nuvens. Raul sorriu. Ele ainda praticava seus pequenos furtos na lua nova, mas a caçada de verdade só ocorria sob a luz azulada da lua cheia.

Graças à Ana.
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