Meia Noite
Autor: © Alexandre Heredia
Encosto o cano do rifle no canto da janela, de modo a ter maior precisão. Focalizo a mira telescópica mas em seguida abro os dois olhos. Ainda não. Ainda não é sua hora. Meia noite. Meia noite ela aparece. E desta vez eu a pego de jeito. Ah, se pego.
Um polegar suado destrava a arma. Agora não tem volta. É puxar o gatilho e bum!, ela já era. Chega de me assombrar. Chega de noites insones, vendo aquela cara branca dela, aquele vestido maltrapilho esvoaçante, aqueles olhos. Sempre curtiu um teatro, não ia ser diferente depois de morta. Depois que a matei, a vaca, a puta, a escrota.
O maluco que me vendeu o rifle me disse que ele matava até alma penada. Tenho certeza que era algum eufemismo idiota, mas prefiro acreditar que não. Nove milímetros de precisão absoluta. Não interessa onde vai atingir, o estrago é sempre fatal. E ela morre de novo. De vez.
A luz da cidade lentamente é embaçada por uma fina névoa, o sereno confuso de toda metrópole. É quase hora. Olho mais uma vez na mira telescópica em direção à rua. Pouca gente, a maioria putas e travecos fulambentos abordando carros cheios de pervertidos. Povo escroto e disseminador de doenças venéreas. São o cancro duro da sociedade, o retrovírus da humanidade.
Pisco os olhos quando o suor escorre para dentro deles, ardendo. Curto a dor por um instante. Lambo meus lábios secos. O carrilhão da matriz anuncia que é chegada a hora. Meia noite. É agora. Vem, piranha, desta vez você vai ver do que sou capaz.
Seu rosto surge na noite, como se a neblina de repente se condensasse em uma face vagamente humana. Ainda não. Não caio nessa, sua puta. Vem, eu sei que você está me vendo. Ela desce até a rua, e a acompanho pela mira. De repente uma puta olha para cima, e são seus olhos nos dela. Aqueles olhos cheios de raiva e escárnio. Foi por isso que te matei, sua vagabunda, por causa deste olhar de zombaria, que me julgava toda vez que o cruzava, um olhar humilhante. Morra de novo!
O tranco do rifle machuca meu ombro, mas não tiro os olhos da mira. Lá embaixo um pandemônio se inicia. A puta se estrebuchava no asfalto, mas seu rosto já não é mais o dela. Ela é agora um travesti escondido embaixo de um toldo de uma loja. Continuava me olhando, me julgando, sorrindo de meu erro. Ria disso, sua escrota!
O travesti cai de joelhos quando sua cabeça explode. Do seu lado uma menina que não deve ter mais do que doze anos se banha com o sangue e miolos espirrados. E olha para cima, uma face de escárnio escarlate. Ela quase voa com o impacto da bala em seu peito juvenil, mas tomba como as outras.
Doze putas depois as balas terminam. Largo o rifle fumegante e caio de joelhos no chão. Ela sumiu, sumiu, finalmente. Depois de quase uma hora ouço sirenes se aproximando. Não me mexo, e após uma breve espera eles batem com violência em minha porta. A paciência é mínima, e em seguida eles a arrombam. Não luto contra as algemas nem os sopapos, pois por mais que eles me trancafiem em um buraco imundo e superlotado, finalmente estou livre. Livre de você, sua puta, sua vaca. Prendam-me, pois já me libertei.
Quando me empurram para o camburão vejo o rosto de uma puta no meio da multidão de curiosos. É um rosto assustado e horrorizado. Quase peço desculpas, pois elas realmente não tinham nada a ver com tudo aquilo, mas antes da porta fechar ela me olha com aqueles olhos malditos. E com eles zomba de mim, e de minha situação atual, pois sabia que agora eu já não tinha para onde fugir, e nem como me defender.
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