A Lua dos Malandros
Autor: © Alexandre Heredia
Lua Nova. Nova noite. De oportunidades irrecusáveis, irrefreáveis, incontroláveis.
A lua sombria no céu era algo que Raul apreciava. As sombras ficavam mais escuras e os esconderijos mais confiáveis. Transeuntes alheios às marés se tornavam presas fáceis. E os ganhos minguados eram suficientes para pagar sua subsistência até o retorno da sombra planetária no satélite indiferente. E ele vivia assim, tranqüilo entre eclipses, até a chegada de Ana à puberdade.
Cabelos negros encaracolados serpentando por ombros nus. O decote generoso denotando a curva ainda suave dos seios recém surgidos. A barra do vestido no meio das coxas ainda magras, mas com grande potencial. Raul só tinha olhos para ela, para seu nariz arrebitado e permeado de sardas, seus olhos negros espertos e seu pescoço de cisne. Nas noites de lua, quando tirava folga dos furtos, Raul sempre arrumava uma desculpa para se aproximar dela, seja na praça do coreto, seja na quermesse da igreja.
Sabia que não teria coragem de conversar, pois ele era um reles menino de rua, e ela a filha do prefeito. Estivera na capital, estudando (num internato, diziam), e só retornava durante as férias. Boa moça, caseira e prendada, diziam os respeitáveis senhores durante os jogos de gamão. Arrumaria logo um excelente marido, fofocavam as carolas após a cerimônia de domingo.
Raul se enfezava quando ouvia o povo falar dela. Para ele Ana era uma deusa inatingível em sua magnitude. Uma virgem imaculada. Tão imaculada que sentia sua pureza feri-lo como fogo. Suas entranhas remoíam ao vê-la, inicialmente pela paixão que aquela visão magnífica causava em seus hormônios efervescentes. Depois, por ódio, pois sabia que aquele desejo nunca seria satisfeito, mesmo que ele roubasse a cidade inteira até ficar rico. Em que prato um pêssego fresco como ela se misturaria a uma capa de gordura de toucinho como ele?
Naquela noite Raul olhou para o grande espaço negro no céu estrelado enquanto aguardava por sua presa da noite deitado no gramado da praça da matriz. Pensou em Ana, em suas sardas, em seus peitos pequenos, mas que sempre inspiravam suas poluções noturnas, em suas coxas magras e em seus olhos negros como o céu à meia noite. Distraiu-se por um instante apenas, pois as fantasias de vez em quando transbordam para a realidade. Ou a invadem, como aconteceu quando ele abriu os olhos e vislumbrou, no espaço onde antes se encontrava a sombra da lua escondida, o rosto de sua amada, cujos olhos o fitavam com o brilho de pequenas estrelas.
De um salto, Raul se ergueu. Os pêlos de sua nuca eriçaram, na expectativa de alguma emboscada. Olhou para os lados, mas estavam sozinhos. Sacou o pequeno estilete instintivamente. Raramente o usou contra pessoas. Seus golpes eram furtivos e discretos. Mas sentiu uma urgência em se armar com o que fosse.
- Acalme-se - disse ela com sua voz melodiosa. - Não vou te fazer mal.
Ainda desconfiado, Raul retesou o braço. Com os olhos procurou um esconderijo, mas sabia que ela o havia pegado de jeito. Estava indefeso.
- Senta do meu lado? - continuou ela, enquanto sentava na relva, ajeitando delicadamente o vestido sobre os joelhos. - Quero conversar.
Raul recolheu envergonhado o estilete. Foram aqueles olhos negros, ele sabia, que o olhavam cheios de bondade. O que ela queria? Estava ela brincando com seus sentimentos? Teria ele transparecido alguma coisa? Sentou-se, não ao seu lado, mas à sua frente. A um braço esticado de distância.
- Não tenha medo. Estava me sentindo solitária, e decidi sair para um passeio. Me disseram que haviam fantasmas ou sacis na praça, que costumavam roubar as pessoas nas noites sem lua. Dinheiro, relógios, pulseiras. Rápidos demais para serem notados. Espertos demais para serem pegos. Precisava ver para crer. Mas você não parece um saci.
Raul riu, encabulado. Esticou as duas pernas para o lado para provar que pelo menos um saci ele não era.
- Um fantasma então? Um espírito brincalhão? É isso que você é?
Raul sacudiu a cabeça, mas sua negativa aparentemente não foi convincente. Curvando o corpo para frente, Ana esticou o braço para tocar em sua face. O decote desceu alguns centímetros, o suficiente para que ele vislumbrasse a curva anterior dos seios jovens dela. Só a curva, pois os mamilos rosados permaneciam escondidos nas dobras do tecido. Sentiu o calor dos dedos de Ana próximos à sua face como um choque elétrico, e afastou-se um pouco, assustado. Ela não o acompanhou.
- Não se assuste! - disse ela. - Não quero machucá-lo.
Ele se deixou tocar. Os dedos macios percorreram sua face com delicadeza, e ele fechou os olhos, aproveitando o gesto ao máximo. Um calor percorreu sua virilha, e subiu como um arrepio por sua espinha até, ironicamente, congelar seu estômago. O estilete foi esquecido na grama, junto com os medos ou ressalvas. Ele estendeu a mão trêmula quando ela baixou o vestido, revelando os pequenos seios ainda não totalmente maduros. Tocou os mamilos de leve, e sentiu-os endurecerem em seus dedos.
- Venha. Tem algo que preciso lhe ensinar.
-o-
E ela ensinou.
Raul sentiu um caroço dançar em sua garganta enquanto recordava aquela noite, há tanto tempo atrás. Do telhado do edifício via os últimos raios se esconderem por entre a paisagem metropolitana, refletindo em vidros espelhados como num esforço desesperado para permanecerem na cidade após o astro desaparecer no horizonte.
Desaparecer como sua Ana. Por onde ela andaria? Automaticamente tocou o pingente em seu pescoço. Um pequeno sol dourado, cujo centro móvel girava para revelar uma face esculpida em ônix. Um sol negro. Uma lua negra. O último presente de Ana.
O sol finalmente se pôs, e o disco brilhante da lua surgiu sorrateira por entre as nuvens. Raul sorriu. Ele ainda praticava seus pequenos furtos na lua nova, mas a caçada de verdade só ocorria sob a luz azulada da lua cheia.
Graças à Ana.
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Lua Nova. Nova noite. De oportunidades irrecusáveis, irrefreáveis, incontroláveis.
A lua sombria no céu era algo que Raul apreciava. As sombras ficavam mais escuras e os esconderijos mais confiáveis. Transeuntes alheios às marés se tornavam presas fáceis. E os ganhos minguados eram suficientes para pagar sua subsistência até o retorno da sombra planetária no satélite indiferente. E ele vivia assim, tranqüilo entre eclipses, até a chegada de Ana à puberdade.
Cabelos negros encaracolados serpentando por ombros nus. O decote generoso denotando a curva ainda suave dos seios recém surgidos. A barra do vestido no meio das coxas ainda magras, mas com grande potencial. Raul só tinha olhos para ela, para seu nariz arrebitado e permeado de sardas, seus olhos negros espertos e seu pescoço de cisne. Nas noites de lua, quando tirava folga dos furtos, Raul sempre arrumava uma desculpa para se aproximar dela, seja na praça do coreto, seja na quermesse da igreja.
Sabia que não teria coragem de conversar, pois ele era um reles menino de rua, e ela a filha do prefeito. Estivera na capital, estudando (num internato, diziam), e só retornava durante as férias. Boa moça, caseira e prendada, diziam os respeitáveis senhores durante os jogos de gamão. Arrumaria logo um excelente marido, fofocavam as carolas após a cerimônia de domingo.
Raul se enfezava quando ouvia o povo falar dela. Para ele Ana era uma deusa inatingível em sua magnitude. Uma virgem imaculada. Tão imaculada que sentia sua pureza feri-lo como fogo. Suas entranhas remoíam ao vê-la, inicialmente pela paixão que aquela visão magnífica causava em seus hormônios efervescentes. Depois, por ódio, pois sabia que aquele desejo nunca seria satisfeito, mesmo que ele roubasse a cidade inteira até ficar rico. Em que prato um pêssego fresco como ela se misturaria a uma capa de gordura de toucinho como ele?
Naquela noite Raul olhou para o grande espaço negro no céu estrelado enquanto aguardava por sua presa da noite deitado no gramado da praça da matriz. Pensou em Ana, em suas sardas, em seus peitos pequenos, mas que sempre inspiravam suas poluções noturnas, em suas coxas magras e em seus olhos negros como o céu à meia noite. Distraiu-se por um instante apenas, pois as fantasias de vez em quando transbordam para a realidade. Ou a invadem, como aconteceu quando ele abriu os olhos e vislumbrou, no espaço onde antes se encontrava a sombra da lua escondida, o rosto de sua amada, cujos olhos o fitavam com o brilho de pequenas estrelas.
De um salto, Raul se ergueu. Os pêlos de sua nuca eriçaram, na expectativa de alguma emboscada. Olhou para os lados, mas estavam sozinhos. Sacou o pequeno estilete instintivamente. Raramente o usou contra pessoas. Seus golpes eram furtivos e discretos. Mas sentiu uma urgência em se armar com o que fosse.
- Acalme-se - disse ela com sua voz melodiosa. - Não vou te fazer mal.
Ainda desconfiado, Raul retesou o braço. Com os olhos procurou um esconderijo, mas sabia que ela o havia pegado de jeito. Estava indefeso.
- Senta do meu lado? - continuou ela, enquanto sentava na relva, ajeitando delicadamente o vestido sobre os joelhos. - Quero conversar.
Raul recolheu envergonhado o estilete. Foram aqueles olhos negros, ele sabia, que o olhavam cheios de bondade. O que ela queria? Estava ela brincando com seus sentimentos? Teria ele transparecido alguma coisa? Sentou-se, não ao seu lado, mas à sua frente. A um braço esticado de distância.
- Não tenha medo. Estava me sentindo solitária, e decidi sair para um passeio. Me disseram que haviam fantasmas ou sacis na praça, que costumavam roubar as pessoas nas noites sem lua. Dinheiro, relógios, pulseiras. Rápidos demais para serem notados. Espertos demais para serem pegos. Precisava ver para crer. Mas você não parece um saci.
Raul riu, encabulado. Esticou as duas pernas para o lado para provar que pelo menos um saci ele não era.
- Um fantasma então? Um espírito brincalhão? É isso que você é?
Raul sacudiu a cabeça, mas sua negativa aparentemente não foi convincente. Curvando o corpo para frente, Ana esticou o braço para tocar em sua face. O decote desceu alguns centímetros, o suficiente para que ele vislumbrasse a curva anterior dos seios jovens dela. Só a curva, pois os mamilos rosados permaneciam escondidos nas dobras do tecido. Sentiu o calor dos dedos de Ana próximos à sua face como um choque elétrico, e afastou-se um pouco, assustado. Ela não o acompanhou.
- Não se assuste! - disse ela. - Não quero machucá-lo.
Ele se deixou tocar. Os dedos macios percorreram sua face com delicadeza, e ele fechou os olhos, aproveitando o gesto ao máximo. Um calor percorreu sua virilha, e subiu como um arrepio por sua espinha até, ironicamente, congelar seu estômago. O estilete foi esquecido na grama, junto com os medos ou ressalvas. Ele estendeu a mão trêmula quando ela baixou o vestido, revelando os pequenos seios ainda não totalmente maduros. Tocou os mamilos de leve, e sentiu-os endurecerem em seus dedos.
- Venha. Tem algo que preciso lhe ensinar.
-o-
E ela ensinou.
Raul sentiu um caroço dançar em sua garganta enquanto recordava aquela noite, há tanto tempo atrás. Do telhado do edifício via os últimos raios se esconderem por entre a paisagem metropolitana, refletindo em vidros espelhados como num esforço desesperado para permanecerem na cidade após o astro desaparecer no horizonte.
Desaparecer como sua Ana. Por onde ela andaria? Automaticamente tocou o pingente em seu pescoço. Um pequeno sol dourado, cujo centro móvel girava para revelar uma face esculpida em ônix. Um sol negro. Uma lua negra. O último presente de Ana.
O sol finalmente se pôs, e o disco brilhante da lua surgiu sorrateira por entre as nuvens. Raul sorriu. Ele ainda praticava seus pequenos furtos na lua nova, mas a caçada de verdade só ocorria sob a luz azulada da lua cheia.
Graças à Ana.
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